quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Verde

Tenho acompanhado uma série em que um dos personagens deixou uma carta para ser lida futuramente em seu velório. Apesar de ser um personagem arrogante, senti pena quando leram o teor. Dentre muitas frases esnobes, no final da carta, ele escreve, "espero que eu tenha sido importante". Pelo que se vê da cena, não foi, e isso me fez pensar. Sei que é obra de ficção, mas muitas pessoas pensam que representam grande coisa ou que causam impacto na vida de outros, mas, quando cometem algum deslize, viram somente uma lembrança amarga, uma "pedra no sapato", e o que muitos sentem é alívio quando essas pessoas saem de cena. Fiquei refletindo sobre a importância que temos para os outros (ou a falta dela). Quando estamos oferecendo algo que os beneficie, somos as melhores pessoas do mundo, mas, quando mostramos nossas falhas, como qualquer ser humano, ninguém tem a nobreza de perguntar se está tudo bem, se precisamos de ajuda, se queremos uma companhia ou algo equivalente. Somos descartados por inutilidade e por uma súbita antipatia gratuita que se instaura. Todos nós já passamos por isso em algum nível, mas até que ponto isso tem se tornado uma prática comum? Não há tolerância, não há compreensão, não há amor... Todos temos algo que pode ser encantador para alguém. Às vezes, pensamos que perdemos nossa "magia", mas acho que, talvez, as pessoas é que perderam a habilidade ("mágica"?) de ver esse encanto no outro, de enxergá-lo como algo único e avassalador - pois, na verdade, é o que todos somos: algo singular que nunca mais se repetirá. Que no nosso dia mais claro e na nossa noite mais densa alguém consiga enxergar, por meio de uma luz de esperança, aquilo que nos torna raros neste planeta - e que consigam nos amar com todos os nossos defeitos e qualidades, de modo a nos sentirmos inteiros dentro da nossa ambiguidade, sem nada a temer.